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CONVERSANDO SOBRE
CRUZEIRO À VELA VII

 

Em uma destas noites estreladas e quentes de Margarita, estávamos conversando com nosso mano Ygor do URUZ, que também se encontra na Marina de Hilton, aguardando o passar da temporada de furacões no Caribe, e o tema obviamente gravitava sobre esta nossa opção de vida, que hoje é sonho de grande parcela da classe média em nosso pais.

Ao contrário do que muitos imaginam, que estamos sempre a cruzar os mares e pouco em terra, o velejar em cruzeiro é justamente ao contrário, estamos mais tempo em Marinas, portos e ancoragens. Isto já dizia Hélio Setti, um referencial autêntico para quem desejar fazer a sua viagem volta ao mundo à vela.

São notadamente três os aspectos fundamentais do cruzeirar:

O primeiro, as passagens ou travessias, aquelas distâncias maiores a serem vencidas, e que fazem parte da rota ou planejamento do cruzeiro volta ao mundo à vela. Exemplo é o cruzar de Fortaleza à Trinidad, ou de Galápagos às Ilhas Marquesas.

Em segundo se encontram as curtas velejadas, aquelas normalmente denominadas interilhas, não superior a três dias, quando estamos conhecendo as ilhas de certo local. Como exemplo citamos aqui no Caribe, pulando de ilha em ilha desde Trinidad até Cuba, e no Pacifico das Ilhas Marquesas o portal de entrada da Polinésia, até a Austrália, ou no Índico, de Timor Oeste até a Tailândia.

E, em terceiro mais presente e constante, estar conhecendo os locais mais detidamente.

Em verdade, para nós, é exatamente neste ponto que realmente a viagem de circunavegação encontra seu ponto maior, seu ápice. Onde travamos o contato com diferentes povos, culturas, hábitos e tradições, onde conhecemos os aspectos antropológicos maiores, onde fazemos e construímos amizades que estarão para sempre arquivadas em nossas memórias.

Não são somente amizades com o povo local, mais e também com os outros cruzeiristas internacionais, com quem aprendemos em muito e aumentamos nossa experiência bastante. Conhecendo os novos elementos, materiais ou climatologia do local. Tomamos conhecimento dos locais que estaremos no futuro e outros já lá estiveram, as famosas e tão indispensáveis dicas.

Nas cidades dos diferentes paises, como de hábito e até uma norma para nós, procuramos estar em pequenas cidades, evitando os grandes centros urbanos, hoje fonte permanente de altos riscos.

Nas cidades de menor porte, se vive ainda muito melhor, e normalmente por ser um balneário ou centro náutico, a existência de maior incidência de cruzeiristas faz aflorar e se desenvolver de forma muito mais rápida, lojas de produtos e reparos náuticos.

Assim, se torna um excelente aprendizado e experiência adquirida, estar fuçando, todas estas lojas. Conhecendo as potencialidades do local em novos eletrônicos e materiais mais modernos lançados no mercado e os seus custos, que passam a ser referenciais e parâmetros.

Tal experiência nos leva a também repassar aos outros, prática muito usual na Família Cruzeirista, uns informando os outros dos melhores locais de compra, mercado mais barato, veleria, mecânica, materiais náuticos, e por ai vai toda a gama de informações inerentes ao velejador de cruzeiro. Não raro é encontrar em uma Marina quadros de aviso com diversas informações úteis para o recém chegado. Em alguns locais existe uma net, ou rede, em VHF que todos os dias a mesma hora tem uma serie de informações, iniciando pela meteorologia. Aqui em Margarita, existe uma no Canal 72, todos os dias às 8:30 horas.

Obviamente que estas informações e mesmo a troca de experiência são notáveis, a bagagem de conhecimento fabulosa do velejador de cruzeiro internacional, que por tal adotamos a sistemática de ao contrário de manter segredinho, a sete chaves, pagar o misterinho para pousar de sabichão, desde o inicio de nossa 1ª viagem, e até hoje, estamos constantemente repassado aqueles irmãos ou Almirantas do Brasil, ainda presos às garras do sistema, estas informações, para seus conhecimentos e também como forma de manter acesa a chama de seu sonho.

Como e de conhecimento, sobejamente, por aqueles que mantém contato conosco, nossos sempre Objetivo Permanente, foi o fomentar o crescimento da vela de cruzeiro em nosso pais e fazer que mais brasileiros se façam ao mar para fazer a volta ao mundo.

Todavia, e não perdendo a linha maior do pensamento inicial, e o exatamente estar mais tempos em Marinas, Portos e Ancoragens, que faz a viagem ganhar mais cor e sabor. Neste mister e obedecendo a ele, e que uma viagem de circunavegação à vela e dividida em dois tipos: 

1-   Fazer a volta ao mundo

2-   Correr em volta do mundo 

Há uma diferença fundamental e até mesmo conceitual destes dois tipos de viagem.

A primeira, a qual pertencemos e fizemos adoção, e o realmente conhecer e vivenciar, na sua expressão maior. Não ter limites de tempo nem se estabelecer datas. Estar acorrentados a coisas que não são pertinentes a vida de cruzeirista, aquela de todo dia ser domingo.

A segunda é a correria desembestada, o passar superficialmente pelos locais, e estar sempre perseguindo datas e tempos, e no final de três ou quatro anos se correu em volta do mundo de forma estressante. Normalmente este é o tipo de cruzeirista que não viu nada e conheceu pouco. Pega os piores tempos climáticos, está sempre tendo problemas, pois não teve o tempo para realizar a manutenção devida, periódica e preventiva, e por tal nas velejadas e o sempre estar quebrando isto e mais aquilo, o estar constantemente em apuros.

Como não tem tempo para conhecer mais detidamente os locais, estabelece seus parâmetros de bom ou ruim, sem a mínima base real. E do tipo que se a cerveja e boa ou gelada, o local é extraordinário. Bem, não se carece apor mais nada nem comentários a respeito.

Futuros cruzeiritas que nos acompanham desde há muito, e os recém chegados ao nosso Grupo Yahoo Guardianboat, adotem como fazer o cruzeiro, fazer realmente a viagem e não correr na viagem. Não se prendam a datas nem tempos, façam a viagem de uma forma plena, pois inegavelmente ao retornarem sentirão fortes saudades daqueles tempos e com muitas dificuldades se adaptarão novamente a vida do apartamento, principalmente no Brasil, onde a cada dia e a cada momento, cresce o ruim, o nefasto, aquilo que em nada tinha com a vida que levava.

Exatamente por isto, que resolvemos chutar o Pau da Barraca pela vez segunda, antes que tivéssemos um pipoco, na saúde, e ou morrêssemos ou ficássemos inválidos, o que seria o pior.

Hoje temos já amadurecido bem a idéia de que será muito difícil retornarmos ao Brasil, não somente pelos desastres conjunturais e as mazelas que assistimos diariamente nos noticiários, mas e sobre tudo, por aproveitar o máximo deste mágico idílio que vivemos no cruzeiro a vela volta ao mundo.


 

 João Sombra

Maio 2007
 


  
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